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Mindfulness: O que é e como se relaciona com as Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais

Cada vez mais, dentro das Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais, crescem as publicações e o interesse dos pesquisadores e clínicos sobre a prática de Mindfulness. Algumas das abordagens cognitivo-comportamentais que, explicitamente, utilizam Mindfulness como componente central em seu trabalho de tolerância aos afetos são: Terapia de Aceitação e Compromisso, Terapia Comportamental Dialética, Terapia Focada da Compaixão e Terapia do Esquema (Leahy, Tirch e Napolitano, 2013). Mas afinal, o que vem a ser Mindfulness?

De acordo com os autores (Chiesa e Malinowski, 2011; Gunaratana, 2005) citados por Menezes, Klamt-Conceição e Melo (2014), o termo Mindfulness provém da filosofia budista, podendo ser entendido como uma qualidade mental que deve ser desenvolvida e cultivada através da prática da meditação. Esta qualidade pode ser descrita como uma consciência clara do que está acontecendo no presente, no momento mesmo em que acontece. Também é conceituada como um estado de presença mental e atenção plena.

Mindfulness é uma prática dirigida à percepção e a ampliação da consciência dos processos internos, como experiências físicas, sensações, sentimentos, eventos mentais e suas flutuações (Menezes, Klamt-Conceição e Melo, 2014). Segundo os autores supracitados, entende-se que a ampliação dessa consciência possibilita a compreensão de que: a) esses processos são transitórios; b) a falta de consciência do automatismo com que se reage a eles leva ao sofrimento; c) esses processos não refletem, necessariamente, o SELF, ou seja, a identidade propriamente dita.

É uma atividade que envolve o monitoramento atento e consciente da experiência, momento a momento, de forma não reativa, sem julgamento, e sem engajamento na elaboração do conteúdo dessas experiências. Tanto em sua forma original, oriunda das tradições espirituais do Oriente, como na sua forma adaptada ao Ocidente, o objetivo da prática de Mindfulness é o desenvolvimento de uma consciência menos condicionada e uma percepção mais clara acerca da natureza das experiências a da atividade mental. A diferença é que, na tradição oriental, a aspiração ao desenvolvimento pessoal está atrelada à dimensão espiritual, a qual não é necessariamente enfatizada e/ou vinculada à proposta ocidental, abordada nas psicoterapias (Menezes, Klamt-Conceição e Melo, 2014).

Mindfulness e a Terapia Cognitiva

Dois aspectos fundamentais influenciam a prática de Mindfulness nas terapias cognitivo-comportamentais: 1) Demonstração empírica dos efeitos dessas intervenções, o que qualifica as abordagens de Mindfulness como práticas baseadas em evidências. 2) Existem importantes paralelos entre os pressupostos teóricos que embasam tanto as práticas baseadas em Mindfulness como as terapias cognitivas, a saber: a) um conceito-chave comum a ambas é o entendimento de que a relação que o indivíduo estabelece com sua atividade mental, ou seja, com sua percepção e interpretação dos eventos, é mais determinante na forma com que ele se sente e se comporta do que o evento propriamente dito; b) Nas duas abordagens, há o entendimento de que os sintomas clínicos e o sofrimento psicológico derivam de reações habituais/automatizadas que comumente refletem uma reação de apego ou uma reação de aversão (Menezes, Klamt-Conceição e Melo, 2014).

A mudança na forma de se relacionar com esses eventos mentais acaba por produzir uma nova forma de perceber e reagir aos fatos em si mesmos. Um dos princípios que está na base desse processo é a extinção, a qual é bastante relevante nas intervenções comportamentais (Salkovskis, 2002; citado por Menezes, Klamt-Conceição e Melo, 2014). Dessa forma, no que se refere principalmente a pensamentos e sentimentos que geram sofrimento, propõe-se que através do treino em Mindfulness, o praticante possa sucessivamente combinar/parear uma gradual exposição a esses conteúdos – oriundo do fluxo natural de sua atividade mental – com uma nova forma de relacionar-se com os mesmos, particularmente uma menor reatividade. Nesse sentido, espera-se que gradualmente os conteúdos sejam extintos, uma vez que perdem sua força e impacto (Bear, 2003; citado por Menezes, Klamt-Conceição e Melo, 2014).

Com a prática de Mindfulness, espera-se que o indivíduo possa perceber e reconhecer os pensamentos e sentimentos, porém sem se fixar aos mesmos, o que diferencia Mindfulness de muitas outras técnicas de terapias cognitivas e comportamentais de primeira e segunda onda, sendo a ideia de aceitação o princípio subjacente (Menezes, Klamt-Conceição e Melo, 2014).

Aceitação, nesse contexto, significa admitir o que acontece em vez de desejar ou tentar fazer com que as coisas sejam diferentes, mas não significa necessariamente gostar das coisas como ela são. Podemos perceber a nossa ansiedade e gostaríamos de não sentí-la, sem ativamente rechaçá-la ou evitá-la de maneira problemática. Aceitação se refere ao reconhecimento de que pensamentos, sentimentos e sensações inevitavelmente surgirão (e inevitavelmente irão embora), e que julgá-los, rechaçá-los ou evitá-los não é muito útil (Roemer e Orsillo, 2010).

Embora a aceitação com frequência seja confundida com resignação, como se fosse uma resposta passiva a eventos ou experiências, observa-se que a raiz de “aceitar”, do inglês médio, é kap, que significa tomar, agarrar ou pegar, o que sugere uma postura mais ativa. Aceitação é entrar ativamente na realidade do que existe, em vez de nos apegarmos a como desejaríamos que as coisas fossem ou a quanto gostamos ou não dessa realidade (Roemer e Orsillo, 2010).

Mindfulness e neurobiologia

As evidências demonstram que Mindfulness pode promover mudanças estruturais e funcionais de curto e longo prazo em regiões clinicamente importantes, relacionadas a habilidades regulatórias, como córtex pré-frontal dorsolateral e medial, córtex cingulado anterior e posterior, ínsula e a amígdala (Menezes, Klamt-Conceição e Melo, 2014), o que confirma que Mindfulness é uma prática baseada em evidências, como exposto anteriormente.

Práticas de Mindfulness

Existem diversas maneiras de praticar Mindfulness, como Respiração diafragmática, Escaneamento Corporal, Meditação da Atenção Focada, Meditação da atenção plena sem foco específico, Meditação dos três minutos de respiração, Meditação Informal, Mindfulness da alimentação, Mindfulness das sensações e emoções, entre outras (Menezes, Klamt-Conceição e Melo, 2014; Roemer e Orsillo, 2010; Leahy, Tirch e Napolitano, 2014). Fugiria do escopo desse texto descrever todas essas formas. Para os leitores interessados, sugere-se a leitura das referências citadas. Para que o leitor tenha uma ideia de prática mais clara, no entanto, descrevei um exercício formal de respiração (Roemer e Orsillo, 2010):

1. Assuma uma posição confortável, deitado de costas ou sentado. Se estiver sentado, mantenha a coluna reta e deixe os ombros caírem;

2. Feche os olhos se for confortável;

3. Preste atenção à sua barriga, sentindo-a se erguer ou se expandir levemente com a inspiração e afundar ou recuar na expiração. (obs.: a expiração deve ser um pouco mais lenta que a inspiração);

4. Mantenha o foco na respiração. Pratique “estar com” cada inspiração enquanto ela durar e com cada expiração enquanto ela durar, como se estivesse acompanhando as ondas da sua respiração;

5. Sempre que perceber que sua mente se afastou da respiração, veja o que o distraiu e depois, suavemente, traga a atenção de volta para a barriga e para a sensação de inspirar e expirar;

6. Se a sua mente se afastar da respiração mil vezes, a sua “tarefa” é simplesmente trazê-la de volta para a respiração todas às vezes, sem se importar com o que o distraiu;

7. Pratique esse exercício por 15 minutos todos os dias, num momento conveniente, independente de estar com vontade ou não, durante uma semana e veja como se sente ao incorporar uma prática disciplinada de Mindfulness à sua vida. Fique atento a como se sente ao dedicar esse tempo, todos os dias, a apenas estar com sua respiração sem ter de fazer nada.

Como o leitor talvez tenha percebido, a disciplina e a persistência são necessárias para a prática de Mindfulness. Como qualquer outra atividade, resultados significativos não são imediatos. Muitas pessoas dizem que não tem disciplina, persistência e até paciência para praticar Mindfulness, mas se esquecem de que essas características também podem ser treinadas e desenvolvidas, inclusive pela prática de meditação. Dito de outra forma, muitos dizem que não vão conseguir praticar Mindfulness porque são indisciplinados, impacientes, ansiosos ou porque não tem tempo, não levando em consideração que Mindfulness é justamente um antídoto contra as causas que supostamente os levam a não praticar.

Uma sugestão é que as pessoas interessadas experimentem várias maneiras e escolham a que melhor se adaptam. Pessoalmente, a maneira que melhor me adaptei é fazer três ou mais práticas de Mindfulness curtas (3 a 5 minutos) durante o dia, ao invés de 15 minutos ou mais. As práticas meditativas mais longas (mais de 30 minutos) normalmente são feitas nos fins de semana ou em qualquer situação onde é possível, como em viagens longas ou no trânsito estagnado (não conheço nada melhor que Aceitação nesse último caso).

De modo geral, Mindfulness é uma prática benéfica e poderosa que pode ser praticada tanto pelas pessoas que encontram-se em psicoterapia, como pelas pessoas que não estão. Procurar profissionais da saúde capacitados ou centros de meditação são sugestões para quem quiser conhecer e praticar. Uma vantagem da prática de Mindfulness em psicoterapia é que a filosofia oriental por trás dela não é enfatizada ou vinculada ao processo psicoterapêutico. Esse fato permite que pessoas de várias crenças possam praticar sem entrar em qualquer tipo de conflito com sua filosofia ou religião pessoal, já que a psicoterapia é um espaço onde todas as crenças são respeitadas e nenhuma delas deve ser ressaltada pelo profissional como sendo a melhor ou pior, boa ou ruim.

Referências

Leahy, R.; Tirch, D.; Napolitano, L. A. Regulação Emocional em Psicoterapia. Artmed, 2013. Porto Alegre, RS.

Melo, W. V.; Kamt-Conceição, I.; Menezes, C. B. Mindfulness pp. 209- 237. In. Estratégias psicoterápicas e a terceira onda em terapia cognitiva. Artmed, 2014. Porto Alegre, RS.

Roemer, L.; Orsillo, S. M. A prática da terapia cognitivo-comportamental baseada em Mindfulness e aceitação. Artmed, 2010. Porto Alegre, RS.

 

 

 

 

 

 

 

 

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