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Necessidades emocionais não atendidas: uma das origens dos esquemas iniciais desadaptativos

A Terapia do Esquema é uma das abordagens da chamada “Terceira Onda” dentro das Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCCs) (Melo, 2014). Trata-se de uma psicoterapia abrangente, que engloba conceitos e técnicas de outras abordagens e teorias, como a Gestalt Terapia, Psicodrama, Psicodinâmica e Teoria do Apego, sem perder a coerência epistemológica e as características essenciais das TCCs.

Inicialmente, a Terapia do Esquema foi criada para tratar transtornos de personalidade e outros problemas psicológicos crônicos, mas atualmente, acredito que também pode ser utilizada em casos menos complexos, em conjunto com a TCC tradicional, principalmente no que se refere à maior investigação das origens do sofrimento psicológico, quase sempre com início na infância e adolescência.

Um dos conceitos centrais da Terapia do Esquema é o de Esquema Inicial Desadaptativo (EID). Trata-se de um tema ou padrão que se repete quando não tratado, relacionado a si mesmo e/ ou a outros, composto por pensamentos (crenças), sensações corporais, memórias e ligados a altos níveis de afeto. Um EID é autoperpetuável, ou seja, influencia o indivíduo a agir (inconscientemente) de forma que o confirme cada vez mais.

Uma das quatro causas de um EID é quando a criança ou adolescente não tem uma ou várias necessidades emocionais (normais de todo ser humano) atendidas. Com o intuito de auxiliar pacientes (material de psicoeduação) e o público interessado, transcrevo literalmente a seguir uma tabela escrita por Falcone, (2014) contento as necessidades emocionais normalmente não atendidas de cada esquema, os temas subjacentes de cada um e os afetos relacionados:

Esquema Inicial Desadaptativo

Necessidades emocionais não atendidas

Temas subjacentes

Sentimentos

Privação Emocional

Acolhimento, afeição, empatia, proteção, orientação, compartilhamento de experiência pessoal

Expectativas de jamais atingir necessidades de apoio, cuidado, empatia e proteção

Isolamento e Solidão

Abandono/instabilidade

Figuras de apego emocional estáveis

Expectativas de ser abandonado por significantes. Os outros são imprevisíveis e não disponíveis

Mágoa, ansiedade e raiva

Desconfiança/abuso

Honestidade, confiabilidade, lealdade e ausência de abuso

Expectativas de ser humilhado, prejudicado ou abusado

Estado de alarme, ansiedade, raiva

Isolamento Social/Alienação

Inclusão e aceitação por uma comunidade que compartilhe interesses e valores

Crenças de estar fora do grupo

Ansiedade

Defectividade/Vergonha

Aceitação e amor incondicionais, ausência de crítica e/ ou rejeição. Encorajamento para compartilhar dúvidas e sentimentos, em vez de escondê-los.

Crença de ser defeituoso, mau ou indigno/inferior

Vergonha ou ansiedade

Indesejabilidade social

***

Crença de não ser atraente fisicamente, incapaz socialmente, tolo ou chato

Ansiedade

Fracasso

Apoio e orientação no desenvolvimento de competências e na escolha de áreas de conquista

Senso de ser incapaz de desempenhar bem em relação aos pares

Sentimento de ser estúpido e medíocre

Dependência/incompetência

Apoio e orientação no confronto com desafios diários, tomada de decisões, sem ajuda excessiva

Incapazes de funcionar de forma autônoma como tomar decisões

Ansiedade e tensão

Vulnerabilidade a danos/doenças

Modelo que equilibra preocupações razoáveis com enfrentamento de riscos, sem preocupações ou superproteção indevidas

Expectativas de ser devastado por catástrofes ou doenças, bem como parentes e de ser incapaz de prevenir

Ansiedade

Emaranhamento/Self subdesenvolvido

Promoção e aceitação de uma identidade separada e de direção na vida. Respeito aos limites pessoais.

Envolvimento e proximidade excessivos com significantes. Incapacidade para desenvolver a própria identidade

Ansiedade

Subjugação

Liberdade de expressão das necessidades, sentimentos e opiniões nas relações, sem medo de punição ou rejeição

Submissão aos outros por medo de conflito e punição

Ansiedade, raiva

Autossacrifício

Equilíbrio na importância da necessidade de cada pessoa, sem uso da culpa como controle da expressão e da consideração com os outros

Foco excessivo nas necessidades dos outros para prevenir a culpa

Culpa, raiva

Busca de aprovação

***

Busca excessiva de atenção, reconhecimento e aprovação

Ansiedade

Inibição Emocional

Figuras significantes que estimulem e ajam com espontaneidade, que falem de sentimentos e encorajem expressões de emoções

Expectativa de que a expressão de sentimentos e a espontaneidade levam a embaraço e retaliação

Inibição das emoções; racionalidade excessiva

Padrões Rígidos/inflexíveis

Orientação apropriada no desenvolvimento de padrões e ideias, assim como equilíbrio nas metas e no desempenho; valorização da saúde, intimidade, lazer, assim como perdão frente aos erros e imperfeições.

Busca excessiva de perfeição, hipercrítico com os outros e consigo, abandono do prazer em prol das obrigações.

Ansiedade

Negativismo/pessimismo

***

Foco excessivo nos aspectos negativos da vida, ignorando os positivos

Ansiedade e estado de alerta

Postura Punitiva

***

Expectativas de que os erros devem ser punidos. Agressividade, intolerância, impaciência.

Irritabilidade

Merecimento/arrogo

Orientação e limite empático para o aprendizado da empatia com a perspectiva, direitos e necessidades dos outros, bem como respeito à igualdade

Crença de ser superior e de ter mais direitos do que os outros.

Raiva

Autocontrole/autodisciplina insuficiente

Orientação e limite empático com relação às competências diárias de rotina, responsabilidades e metas de longo prazo. Limites frente a expressões descontroladas de emoções ou de impulsividade.

Intolerância a frustração e incapacidade para controlar impulsos

Raiva

Como o leitor talvez tenha imaginado, é improvável que os pais ou cuidadores sejam capazes se atender de forma adequada (a “dose certa”) todas essas necessidades emocionais. O surgimento de um EID depende de outros fatores, inclusive o temperamento inato de cada criança, algo relativamente complexo de ser identificado pelos pais. Esse é um dos motivos pelos quais todos nós temos alguns ou vários desses esquemas. O que varia entre cada pessoa é a intensidade e o modo de lidar com os esquemas.

Além das necessidades emocionais não atendidas, traumas infantis (por exemplo, abuso sexual), excesso de experiências agradáveis (mimos e elogios, por exemplo) e a internalização de características de pessoas significantes podem originar EIDs.

Os EIDs não ficam cem por cento do tempo em nossa memória operacional (consciência). Permanecem latentes e são ativados por circunstâncias que surgem no ambiente e, nesse momento, servem como “filtro” para interpretar os dados na realidade. Como ativam emoções desagradáveis, o indivíduo lança mão de estratégias de enfrentamento que, momentaneamente, aliviam as emoções desagradáveis, mas ao longo do tempo reforçam cada vez mais os esquemas. Essas estratégias são a resignação, evitação ou compensação, descritas num próximo texto.

Outro conceito importante em Terapia do Esquema são os Modos de Esquemas, mas estes também ficam para um próximo manuscrito, assim como objetivos e técnicas de tratamento.

Para os interessados no tema, mas que não dispõe de tempo para ler os livros de Jeffrey Young, criador dessa terapia, um ótimo capítulo de livro foi escrito por Eliane Falcone: Terapia do Esquema pp264-288 do livro Estratégias psicoterápicas e a terceira onda em terapia cognitiva. Wilson Vieira Melo (organizador): Sinopsys, 2014 – Novo Hamburgo: RS

 

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