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Quais as possíveis conseqüências de um ambiente invalidante para a criança?

Sabe aquela velha historinha de que meninos não podem chorar, pois choro não é coisa de homem? Esse é um exemplo clássico de ambiente invalidante. Mas o que seria tal ambiente?

De acordo com Linehan (2010), um ambiente invalidante é aquele onde a comunicação de experiências privadas de crianças – emoções, ideias, sensações – é estabelecida com respostas erráticas, inadequadas ou extremas. Em outras palavras, a expressão das experiências privadas não é validada. Pelo contrário, costuma ser punida e/ ou banalizada. A experiência de emoções dolorosas, bem como os fatores que, para a criança que sente a emoção, parecem ser a causa da perturbação emocional, é desconsiderada.

Imagine uma criança pequena que sente medo (emoção) porque acredita que tem um bicho embaixo da sua cama (causa) e os pais dizem que não tem nada ali e não é para ela fazer escândalo. Em outro exemplo, pense numa criança que sente tristeza (emoção) porque um animal de estimação morreu (causa) e os pais dizem que era só um bicho e é só comprar outro. Ou ainda, visualiza uma criança que está feliz (emoção) porque tirou uma nota alta na escola (causa) e os pais dizem que não é para se sentir assim e que não fez mais do que a obrigação. Do mesmo modo, imagine uma criança que diz que gostou de uma roupa e os pais dizem que ela não sabe nada e quem escolhe são eles...

Todos esses são exemplos muito simples de um ambiente invalidante. A invalidação, segundo Lineham, tem duas características principais. Em primeiro lugar, ela diz ao indivíduo que ele está errado em sua descrição e em suas análises das suas próprias experiências, particularmente em suas visões sobre o que está causando suas emoções, crenças e ações. Em segundo lugar, atribui suas experiências a características ou traços de personalidade que são socialmente inaceitáveis (medroso, irritante, hiperativo, sonhador, etc). O que pode acontecer, segundo a autora supracitada, se o ambiente for sistematicamente invalidante ao longo da infância e adolescência?

  1. Inicialmente, por não validar a expressão emocional, o ambiente invalidante não ensina a criança a rotular suas experiências privadas (como dar nomes as suas emoções). A criança não aprende a modular a excitação emocional. Como os problemas da criança emocionalmente vulnerável não são reconhecidos, existe pouco esforço para resolvê-los. Fala-se que a criança deve controlar as emoções, ao invés de ensiná-la exatamente como fazer isso.

  2. Em segundo lugar, simplificando a facilidade de resolver os problemas da vida (“é só comprar um animal de estimação novo”), o ambiente não ensina a criança a tolerar a tensão ou a formar objetivos e expectativas realistas.

  3. Em terceiro lugar, dentro de um ambiente invalidante, normalmente são necessárias demonstrações emocionais extremas e/ ou problemas extremos para provocar uma resposta ambiental proveitosa (“Tipo, se chorar porque tenho um problema não adianta, vou fazer um escândalo”). Assim, o ambiente invalidante favorece o desenvolvimento de demonstrações emocionais extremas.

  4. Por fim, esse ambiente não ensina à criança quando deve confiar em suas respostas emocionais e cognitivas. Ao invés disso, o ambiente invalidante ensina a criança a invalidar ativamente as suas próprias experiências e vasculhar seu ambiente social em busca de sinais de como agir, sentir e agir (“Se tudo o que eu sinto é errado, melhor não confiar em mim mesmo”).

Quando as emoções primárias (medo, raiva, tristeza, nojo, surpresa e alegria) são sistematicamente invalidadas, é muito comum que entrem em ação as emoções secundárias ou sociais, como vergonha, culpa, inveja. Assim, uma pessoa pode sentir culpa por estar com raiva ou vergonha de sentir medo, por exemplo. Além disso, as crianças podem começar a interpretar (criar crenças) as emoções de modo disfuncional (Sou um fraco por estar triste; Sou uma pessoa má por sentir raiva, etc).

Deixo essa sugestão aos pais, portanto. Emoções, pensamentos e experiências infantis precisam ser aceitas, validadas. Caso os pais tenham dificuldade em nomear e lidar com suas próprias emoções e experiências, uma dica seria o auxílio de um(a) psicólogo(a).

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