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Coronavírus e Terapia Focada na Compaixão

Coronavírus e Terapia Focada na Compaixão

Na atual situação de pandemia ocasionada pelo coronavírus, que já deixou um lastro de sofrimento e perdas irreparáveis mundo afora, é interessante observar o comportamento das pessoas em relação à quarentena imposta pelas autoridades brasileiras, visando diminuir a velocidade da propagação do vírus, e a todas as situações relacionadas a pandemia.

Algumas pessoas se desesperam e entram em pânico, emitindo comportamentos que não ajudam ninguém; outras pessoas aparentemente tem uma preocupação saudável, seguindo as orientações oficiais; observam-se pessoas que parecem estar totalmente despreocupadas, talvez por desconhecimento, talvez insensibilidade...; há ainda aqueles que visam lucrar com o sofrimento dos outros; também não podemos deixar de notar os comportamentos inconsequentes (fakenews, por exemplo) e até mesmo aqueles que buscam status e engrandecimento de uma forma ou de outra.

Entre as diversas possibilidades de teorias psicológicas para entender o comportamento humano, nesse momento de tensão e sofrimento, acredito que a Terapia Focada na Compaixão (TFC), uma dentre as várias formas de Terapias Cognitivo-Comportamentais, pode ajudar a compreender o comportamento humano e a nos auxiliar, não somente durante a crise, mas posteriormente.

Um dos conceitos da Terapia Focada na Compaixão é o de “Mentalidades Sociais”, definida como uma junção de vários módulos e competências psicológicas específicas (Gilbert, 2020). De acordo com Paul Gilbert, fundador da TFC, todos temos tendências evolutivas e sociais a buscar relacionamentos, objetivos e motivos biossociais da espécie. Para cada um de nossos objetivos e motivos biossociais (Por exemplo: oferecer cuidados; receber cuidados; buscar status; buscar parceiro (a)s sexuais; cooperação entre pares) ativamos determinadas Mentalidades Sociais, ou seja, modos psicológicos muito específicos de prestar atenção, raciocinar, se comportar e de sentir. Exemplificando, quando uma pessoa está com a Mentalidade Social de “Cuidador” ativada, muito provavelmente seus pensamentos, emoções e comportamentos são diferentes dos pensamentos, emoções e comportamentos da Mentalidade Social de “busca por parceiro(a)s/relações sexuais”. Resumindo, todos temos várias mentalidades sociais, cada uma delas mais ou menos desenvolvida, uma vez que a evolução da espécie não opera sozinha, mas sempre interagindo de forma complexa com fatores sociais, culturais, econômicos, desenvolvimentais, etc.

Se as interações entre evolução da espécie, fatores ambientais e desenvolvimentais fossem simples, seria de esperar que, na atual situação de pandemia, todos os humanos acionassem suas mentalidades sociais de prestação de cuidados para com os outros e para consigo. Não é o que ocorre, como é fácil observar. Por que isso ocorre? Um simples exemplo: Se uma pessoa não recebeu cuidado adequado durante toda a sua infância (por negligência, traumas, abusos, etc), é de se imaginar que ela tenha dificuldade de receber e oferecer cuidado. Só fazemos o que aprendemos, não é mesmo? Minha hipótese é que não há muita consonância entre as Mentalidades Sociais nessa pandemia, por isso se observa tantos comportamentos, como aqueles citados anteriormente nesse texto. Pessoas compartilhando o mesmo ambiente (uma casa, uma rua, um bairro ou o mesmo planeta) com diferentes Mentalidades Sociais ativadas tendem a conflitar ou mesmo entrar em convergência de forma disfuncional.

Muito embora todas as Mentalidades Sociais sejam compreensíveis, importantes e adaptativas, dependendo do contexto, o momento atual solicita (ou implora) que a mentalidade de prestação de cuidados para consigo e com os outros seja a mais forte. Ao menos, é um tempo que pode servir para reflexões. Paul Gilbert assinala que é um sinal de saúde mental a transição entre diferentes Mentalidades Sociais dependendo do contexto. Ao contrário, permanecer sempre na mesma Mentalidade Social é sinal de inflexibilidade. Sendo assim, mesmo em momentos de tensão e com mais ou menos facilidade, é possível desenvolver a mentalidade de cuidador, essencial para a sobrevivência da espécie, mesmo em pouco tempo. Como? Você pode desenvolver sua habilidade de cuidador cultivando a (auto) compaixão.

Segundo Paul Gilbert, a Compaixão é uma sensibilidade/bondade ao próprio sofrimento e/ ou ao sofrimento das outras pessoas. Mas não é apenar se sensibilizar com o sofrimento, é agir, ou seja, se comportar para que a dor seja amenizada. Não é uma questão de fugir ou evitar a dor, mas fazer algo para minimizá-la. Dentro do conceito de Compaixão, Paul Gilbert empresta de Kristin Neff, pioneira no estudo da Compaixão, a ideia de Humanidade em Comum. Ou seja, estamos todos no mesmo barco. O sofrimento individual e/ou comunitário (doenças, perdas, mortes, fracassos, etc), mais cedo ou mais tarde, vai ocorrer, pois faz parte na vida/natureza humana. Portanto, além do medo, que é uma das emoções que nos motiva a termos cuidados individuais ou no máximo grupais, podemos desenvolver a compaixão, que envolve não só o indivíduo, mas a espécie. Enquanto o medo/ansiedade é individual, a Compaixão é Social.

Portanto, nesse momento de crise, procure ser compassivo consigo mesmo (autocompaixão), com os outros e comece a refletir sobre o medo de receber compaixão dos outros, caso você tenha essa característica. Mesmo que poucas pessoas tenham sido compassivas com você, as coisas podem ser diferentes. Obvio que não é algo simples, mas enquanto psicoterapeuta, ando sempre entre a realidade dos fatos e o otimismo. Para aquele(a)s com mais facilidade em dar e receber compaixão, não esqueça de ser compassivo também com as pessoas que por algum motivo não estão conseguindo cooperar nesse momento de crise, por exemplo, aqueles não que permanecem em casa na quarentena.

Ainda não temos cura para o Coronavírus, mas temos a possibilidade de eticamente desenvolver cada vez mais a (auto) Compaixão, independente do que aconteça nesse momento difícil e sofrimento compartilhado. Você pode desenvolver a Compaixão pela prática de Atenção Plena, que também pode ser chamada de Mindfulness. Várias dessas práticas são facilmente encontradas em sites especializados ou em aplicativos. Lembre-se de que é preciso treino e persistência. Além disso, caso você sinta emoções dolorosas durante o treino de compaixão, saiba que você pode ter o que Paul Gilbert chama de Medo da Compaixão. Talvez você tenha pareado ou associado emoções agradáveis com traumas. Por exemplo, uma criança pode estar brincando (emoções prazerosas/afiliativas) e inesperadamente pode ser agredida/abusada por adultos. Assim, algumas áreas cerebrais mais antigas do ponto de vista evolutivo podem “entender” que sentir emoções prazerosas é um sinal de perigo. Nesse caso, não se sinta desencorajado. Uma ajuda profissional adequada pode auxiliar.

Saiba também que, de acordo Kristin Neff, ser compassivo não significa ser fraco; não significa apenas ter dó ou auto piedade. Muitas vezes, ser compassivo envolve ações éticas e racionais, como deixar de abraçar os entes queridos em pandemias. Lembre-se: Chegamos até onde chegamos enquanto espécie não somente pela competição, mas também pela compaixão.

 

 

 

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