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Influência do funcionamento executivo e cuidado materno das mães sobre o desenvolvimento das funções executivas dos filhos

Em um estudo recente¹, pesquisadores investigaram as possíveis relações entre as Funções Executivas e comportamentos de cuidado materno, de um lado, e o desenvolvimento das funções executivas nas crianças, do outro lado.

Com esse objetivo em mente, 62 díades mãe-filho foram avaliadas em momentos diferentes. A interação entre mãe-filho foi avaliada quando os filhos tinham 10, 24 e 36 meses. As Funções Executivas de cada mãe foram avaliadas separadamente, sem a presença dos filhos. Já as funções executivas de cada filho foram avaliadas aos 24, 36 e 48 meses.

Os dados estatísticos alcançados revelam que déficits executivos e comportamentos de cuidado negativos maternos (desatenção com os filhos, pouco afeto, negligência, entre outros) tem influência negativa sobre o bom desenvolvimento das funções executivas dos filhos. No entanto, quando as funções executivas das mães não são boas, mas os cuidados maternos são ótimos, o desenvolvimento executivo dos filhos não é prejudicado. Interessante, não? Bom, mas o que vem a ser funções executivas? Qual sua importância?

As funções executivas podem ser descritas como habilidades mentais de alto-escalão. Dentro desse termo “guarda-chuva”, pode-se incluir habilidades como controle de impulsos, memória operacional e flexibilidade cognitiva, considerados os componentes executivos nucleares. Com o decorrer da infância, novos componentes executivos se aprimoram sob a base dos componentes primordiais, como planejamento, organização, raciocínio lógico, categorização e tomada de decisões.

O córtex pré-frontal é a área cerebral mais relacionada às funções executivas, embora não seja a única, visto que nenhuma área cerebral tem atividades isoladas. O artigo citado no presente manuscrito sugere que as funções executivas sofrem influência genética devido aos polimorfismos em múltiplos genes responsáveis pela produção e utilização de dopamina, um neurotransmissor associado com as funções executivas.

Ainda segundo o artigo mencionado, além das influências genéticas, níveis elevados de hormônios do estresse no ambiente (inclusive intra-uterino) prejudicam o desenvolvimento ótimo das funções executivas. Por outro lado, mesmo com influências genéticas negativas, um ambiente saudável pode potencializar o desenvolvimento das funções executivas, visto que estudos de epigenética indicam que o ambiente pode “ativar” ou “desativar” os genes.

A importância do tema reside no fato de que déficits executivos estão associados há uma série de prejuízos na infância, como dificuldades de interação social, dificuldade de aprendizagem escolar, maior propensão a transtornos de humor e de ansiedade, entre outros. Em adultos, diversas pesquisas neuropsicológicas indicam déficits executivos em transtornos como Depressão, Bipolaridade, TDAH, Esquizofrenia e Transtornos de Ansiedade. Mesmo quando o indivíduo não é acometido por transtornos psicológicos, dificuldades executivas estão relacionadas à menor condição sócio-econômica.

Diante do exposto, fica mais clara a necessidade de programas de prevenção, onde as famílias podem ser psicoeducadas sobre a importância de questões básicas como o Afeto, além de intervenção precoce em casos de maior vulnerabilidade.

Na prática clínica, observa-se que a questão do Afeto não está ligada necessariamente aos maus tratos ou negligência. É perceptível que os pais amam e se preocupam com seus filhos, mas não sabem dar afeto, provavelmente porque também não o tiveram.

Além disso, os resultados desse estudo levantam outra questão: Os modelos de psicoterapia infantil, onde o trabalho com os pais normalmente é apenas de “orientação”, são suficientes? Por qual motivo muitos pais e mães não seguem as orientações do profissional?

Felizmente, para os casos onde existe essa dificuldade, algumas possibilidades estão sendo estudadas, entre as quais está a Terapia do Esquema aplicada a crianças e adolescentes. Nesse tipo de intervenção, além das orientações tradicionais, os esquemas cognitivos dos pais são avaliados e discutidos com o profissional no sentido de investigar de que maneiras as questões pessoais dos pais estão influenciando nos problemas dos filhos.

Não se trata de uma psicoterapia paralela, pois os problemas dos pais associados aos seus esquemas cognitivos que não estejam relacionados com a problemática da psicoterapia dos filhos, não são discutidos.

 

1 . “What’s mom got to do with it? Contributions of maternal executive function and caregiving to the development of executive function across early childhood”.

Revista: Developmental Science 17:2 (2014), pp 224–238 DOI: 10.1111/desc.12073

Autores: Kimberly Cuevas; Kirby Deater-Deckard; Jungmeen Kim-Spoon; Amanda J. Watson; Katherine C. Morasch; and Martha Ann Bell.

 

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