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Relação entre emoções primárias e secundárias

As emoções são reações fisiológicas herdadas ao longo da evolução da espécie e, entre outras funções, preparam o organismo para alguma reação frente a determinadas situações do ambiente. É como se a emoção dissesse para o corpo: “Está vendo essa situação no ambiente? Agora aja dessa maneira para resolver isso!”.

Frente ao perigo, por exemplo, sentimos medo e somos compelidos a fugir ou nos proteger. Quando comemos algum alimento que não nos fez bem, ao vermos o mesmo alimento posteriormente, podemos sentir nojo, e assim acontece com todas as emoções. Cada emoção tem as suas funções.

De modo geral, há um consenso de que há seis emoções primárias, a saber: o medo, a tristeza, a raiva, o nojo, a surpresa e a alegria. Para alguns autores o amor também seria uma emoção primária. São consideradas primárias porque podem ser “sentidas” por qualquer ser humano (e por varias espécies de animais), independente da cultura. Também são conhecidas como emoções básicas.

Além das emoções primárias, no entanto, também temos as emoções secundárias, ou sociais. Essa classe de emoções, embora herdadas biologicamente, são mais ou menos ativadas e expressadas dependendo de cada cultura. Enquanto as emoções primárias são mais dependentes de estruturas subcorticais do cérebro, as emoções secundárias estão mais associadas com o córtex, particularmente a região pré-frontal.

De acordo com algumas teorias da terapia cognitiva construtivista, muitas vezes sentimos emoções primárias, absolutamente normais, e essas emoções acabam sendo invalidadas pelo ambiente onde vivemos. Nessas situações, podemos criar pensamentos acerca das emoções primárias, como: “Sou um fraco por me sentir triste”; “Sou uma pessoa má por sentir raiva”, etc.

Com sucessivas invalidações, pode acontecer de aos poucos essas emoções ficarem difíceis de serem percebidas pelas pessoas. Surgem então, com muita força, as emoções secundárias, com vergonha, culpa, inveja. Desse modo, a pessoa, além das crenças negativas sobre as emoções primárias, pode ter vergonha de ter medo, culpa por sentir raiva e assim por diante. Quando as emoções primárias são sistematicamente invalidadas, é comum que as pessoas apenas digam que “estão mal”, “angustiadas”, etc., mas não conseguem nomear, especificamente, nenhuma emoção.

Para que as pessoas interessadas possam entender melhor a relação entre emoções primárias e secundárias, vale à pena transcrever um quadro retirado do livro “Em busca de Espinosa: Prazer e dor na ciência dos sentimentos” (Editora Companhia das letras, 2004), de António Damásio:

Emoção Secundária: Embaraço; Vergonha; Culpa

EEC (Estímulo emocional competente – que ativa uma emoção): identificação de um problema no comportamento ou no corpo do próprio indivíduo.

Consequencias: evitação da punição imposta por terceiros; reequilíbrio do próprio indivíduo, do outro, ou do grupo; policiamento das regras de comportamento social.

Base (Emoções primárias): Medo; Tristeza.

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Emoção Secundária: Desprezo, indignação

EEC: violação de normas de conduta por parte de outra pessoa.

Consequencias: punição da violação; policiamento de regras de comportamento social.

Base: Nojo; raiva.

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Emoção Secundária: Simpatia; compaixão.

EEC: o sofrimento de outro indivíduo.

Consequencias: conforto; reequilíbrio do outro ou do grupo.

Base: Apego (amor); tristeza

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Emoção Secundária: Espanto; admiração; elevação; gratidão; orgulho

EEC: reconhecimento (no outro ou no próprio indivíduo) de uma contribuição para a cooperação.

Consequencias: recompensa da cooperação; policiamento da tendência para a cooperação.

Base: Felicidade; alegria.

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Como se pode notar, também possuímos emoções secundárias prazerosas de sentir, mas como via de regra as pessoas procuram a psicoterapia por não estarem bem, uma das coisas mais comuns em psicoterapia é desvendar qual a emoção primária está pro trás das emoções secundárias.

Espero que esse simples manuscrito ajude-o a pensar sobre quais emoções primárias estão “escondidas” e quais as crenças (pensamentos) que você criou acerca das emoções, afinal, “muitas vezes os problemas não são os fatos, mas a maneira como pensamos sobre os fatos”. Nesse caso, os “fatos” concretos, absolutamente normais, são as emoções.

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