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Alterações linguísticas relacionadas ao hemisfério direito

Resumo feito a partir do manual da Bateria Montreal de Avaliação da Comunicação (MAC) com o objetivo de divulgar informações ao público leigo sobre Alterações Linguísticas relacionadas ao hemisfério direito.

No último século, houve uma evolução importante no que se refere ao modo de entender os papéis dos hemisférios cerebrais no processamento lingüístico. Na segunda metade do século XIX, os avanços revelaram o papel preponderante do hemisfério esquerdo; na segunda metade do século XX, foi claramente demonstrado que a integridade dos dois hemisférios cerebrais é igualmente necessária para uma comunicação eficaz.

O avanço dos conhecimentos teóricos e clínicos permite hoje que se reconheçam distúrbios da comunicação depois de acometimentos neurológicos do Hemisfério Direito. No entanto, como essas alterações geralmente são mais sutis que acometimentos no hemisfério esquerdo, muitas vezes passam despercebidas pelos profissionais da saúde, pois lesões do hemisfério direito não afetam a forma da linguagem como fonologia ou a sintaxe, mas seguramente podem prejudicar os componentes do discurso e da pragmática.

Distúrbios da comunicação em lesados de Hemisfério Direito (LHD)

Uma lesão cerebral direita pode levar a problemas de comunicação verbal e afetar os componentes discursivos, pragmático, léxico-semântico e prosódicos da linguagem. Salienta-se que nem todos dos LHD apresentam tais dificuldades. Atualmente, estima-se que a metade desta população neurológica caracteriza-se por déficits em um ou mais desses componentes.

Componentes Discursivos

As habilidades de discurso permitem que o indivíduo transmita informações sob a forma de conservação (discurso conversacional ou dialógico), de explicação de procedimentos (discurso procedural), de descrição de fatos, ambientes, eventos (discurso descritivo) ou de narrativa de uma história, de um acontecimento (discurso narrativo).

A dimensão discursiva da linguagem tem sido suscetível a um déficit no quadro de lesão cerebral direita. No nível expressivo, o discurso dos LHD é frequentemente menos informativo, com forte tendência a um discurso tangencial. Também podem apresentar dificuldade em produzir de forma adequada referências.

No nível receptivo, vários estudos referem à dificuldade dos LHD em integrar o conjunto de elementos de uma história e uma idéia total coerente, com o intuito de processar as inferências necessárias para uma compreensão adequada e eficaz. Em geral, é difícil para um bom número de pacientes LHD captarem a idéia central de um discurso ouvido ou lido, dar um título para uma história ou ainda escolher uma frase que resuma o tema principal.

Os déficits de macroestrutura discursiva podem estar presentes nos indivíduos LDH, tanto em nível receptivo quando no expressivo, e indicam, entre outros, um prejuízo das habilidades inferenciais e de síntese, assim com certos componentes das funções executivas.

Em suma, observam-se nos LHD dificuldades de processamento do discurso conversacional, com prejuízo da troca de turnos, da manutenção do assunto (discurso tangencial), de habilidades pragmático-discursivas, de como aprender a intenção do interlocutor e conduzir o discurso com base nela. No discurso narrativo, também são descritos prejuízos na construção de histórias baseadas em estímulos visuais desordenados, além de déficit no reconto de histórias, com omissão de informações importantes para a compreensão do texto.

Componentes pragmáticos

A pragmática refere-se às habilidades lingüísticas que permitem a um indivíduo processar – compreender e/ ou expressar – as intenções de comunicação de acordo com um dado contexto. Para que essas intenções sejam processadas, é necessário, muitas vezes, que o indivíduo faça inferências, ou seja, com base no seu conhecimento de mundo e nas informações explícitas, compreenda ou produza informações implícitas.

As habilidades pragmáticas podem, então, ser chamadas de pragmático-inferenciais. Durante uma conversação, sabe-se que os LHD têm, às vezes, dificuldade de se colocar no lugar do interlocutor. Eles podem, entre outras coisas, não respeitar os atos de fala, de manter o contato visual constante com seu interlocutor e de respeitar o tema do assunto. Podem demonstrar dificuldade de adaptar sua mensagem lingüística ao contexto comunicativo, considerando as informações que são ou não conhecidas do interlocutor, conhecimentos geralmente descritos como sendo compartilhados.

No nível receptivo, os LHD podem ser incapazes de compreender os atos de fala em que a intenção não esteja explicitamente mencionada na mensagem lingüística. Essas habilidades pragmático-inferenciais são também alvo de dificuldades quando o processamento de metáforas é necessário, assim como também o é toda forma de linguagem não-literal. Em tais casos, para que um enunciado seja bem compreendido, o ato de fala ou a metáfora devem estar inseridos em um contexto preciso.

Componentes léxico-semânticos

A dimensão léxico-semântica da linguagem faz referência à capacidade de compreender e de expressar palavras, isto é, está relacionada com o processamento lingüístico no nível da palavra. Por exemplo, em uma tarefa de evocação lexical ou fluência verbal em que a pessoa é orientada a dizer a maior quantidade possível de palavras com base em algum critério, os LDH tendem a dizer menos palavras do que o grupo-controle, ativando ainda relações semânticas periféricas quando julgam palavras que não têm uma forte ligação entre elas e que são pouco prototípicas.

Os indivíduos LHD podem também apresentar habilidades deficitárias para estabelecer relações semânticas entre as palavras. Essas dificuldades são ainda maiores quando os pacientes são solicitados a acessar a categoria precisa, a fim de que expliquem as relações entre duas ou mais palavras, como legumes e utensílios domésticos. No conjunto, os déficits léxico-semânticos dos LHD são particularmente observados quando eles precisam processar palavras isoladas de pouca concretude e pouco freqüentes na sua língua materna.

Em suma, os LHD apresentam, por vezes, problemas léxico-semânticos, que afetam ou a capacidade de evocar as palavras ou a habilidade de aprender a relação entre elas, podendo, ainda, apresentar dificuldades de tratar o sentido metafórico das palavras.

Componentes prosódicos

A prosódia consiste na modulação de parâmetros supra-segmentares da linguagem – freqüência, intensidade e duração – para transmitir uma intenção comunicativa lingüística ou emocional. A prosódia lingüística abarca a acentuação lexical (tonicidade que varia entre as diferentes sílabas na língua portuguesa brasileira), enfática (por exemplo, “JOÃO, pega o pão” versus “João, pega o PÃO) e a expressão dos diferentes tipos de frases (afirmação, interrogação). A prosódia emocional trata das variações de entonação que permitem a transmissão de sentimentos (raiva, alegria, surpresa). Em LHD, os déficits englobam a prosódia emocional de maneira mais acentuada, mas o prejuízo também é notado no processamento da prosódia lingüística.

Do ponto de vista clínico, no nível expressivo, observa-se uma entonação monótona nos pacientes LHD. Essa população tende a produzir padrões de entonação emocional semelhantes aos dos indivíduos neurologicamente saudáveis; caracterizam-se, porém, por uma importante redução das variações de tonalidade. Por essa dificuldade em modular a tonalidade, eles podem apresentar déficits na transmissão de mensagens lingüísticas, principalmente quando precisam se comunicar nesta modalidade. As pausas entre as palavras também podem se mostrar inadequadas.

No nível receptivo, os LHD podem apresentar dificuldades em compreender a intenção comunicativa transmitida pela prosódia do interlocutor. Quando submetidos a uma tarefa de compreensão de prosódia emocional, a identificação do sentimento transmitido parece ser inadequada se a frase ouvida tiver um conteúdo lingüístico neutro.

Rochele, P. F.; Parente, M. A. M. P.; Côté, H.; Ska, B.; Joanette, Y.; Bateria MAC. Manual Introdutório. Pró-fono, 2008. Barueri: SP

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