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A Aprendizagem Sem Erro como recurso na reabilitação de pessoas com problemas graves de memória

O intuito do presente manuscrito é tornar conceitos e técnicas da Neuropsicologia acessíveis ao público interessado e municiar as pessoas com estratégias e conhecimentos que podem ajudá-las no dia a dia, seja como cuidador ou paciente.

O presente texto fala sobre Aprendizagem sem Erro, uma técnica de Reabilitação da Memória que vem sendo usada por muitos profissionais nos últimos anos. Diversos são os problemas que podem ocasionar sérios problemas de memória, como Demências, Traumatismos Crânio-Encefálicos, AVCs, entre outros. Desse modo, acredita-se ser útil disponibilizar essas informações. Todos os conceitos descritos abaixo foram retirados do Livro de Bárbara Wilson, referenciado abaixo.

“Um dos principais procedimentos em reabilitação da memória é ajudar as pessoas com comprometimento de memória a aprender com mais eficácia. Nós que temos funcionamento de memória suficiente para lembrarmos de erros anteriores, podemos nos beneficiar da aprendizagem através de tentativa e erro, mas, para aqueles que não conseguem lembrar respostas incorretas, esse não é um bom método. Na verdade, o fato de se dar uma resposta incorreta pode reforçar essa resposta. Essa é a hipótese por trás da Aprendizagem sem Erro (SE). A aprendizagem SE é uma técnica de ensino através da qual se evita, na medida do possível, que as pessoas cometam erros enquanto estão aprendendo uma nova habilidade ou adquirindo informações. O princípio é o de se evitar os erros cometidos durante a aprendizagem visando a minimizar a possibilidade de respostas erradas”.

“Acredita-se que a Aprendizagem sem Erros depende da memória implícita, já que os pacientes amnésicos tem mais dificuldade ou total impossibilidade com a memória explícita. Como a memória implícita não é capaz de discernir entre respostas corretas e erros, é melhor prevenir os erros iniciais. Na ausência de uma memória explícita episódica eficiente, o fato de ser uma resposta incorreta pode fortalecer ou reforçar o erro” (Wilson, 2011). Embora exista controvérsia se a Aprendizagem Sem erro é ou não um tipo de memória explícita, implícita ou ambas, foge do escopo desse breve texto uma discussão teórica mais aprofundada. O fato é que funciona bem. A seguir alguns exemplos de Aprendizagem Sem Erro:

EVOCAÇÃO ESPAÇADA

“Também conhecida como repetição expandida ou em expansão, envolve a apresentação de conteúdo a ser lembrado (por exemplo, um número novo de telefone) seguida da testagem imediata e depois por um gradativo aumento do intervalo de retenção. Então, se o número 30482918 é apresentado, o paciente imediatamente o repete. Pessoas com span de dígitos normal ( incluindo a maioria das pessoas com comprometimento de memória) serão capazes de fazê-lo sem muita dificuldade. O clínico então aguarda 1 ou 2 segundos e pede (mas não o repete) que o número seja repetido. O intervalo de teste é gradualmente aumentado até que o número seja aprendido. Em caso de falhas, a informação correta será fornecida e o intervalo de retenção diminuído e gradualmente aumentado outra vez. Nomes novos, endereços curtos e itens de conhecimento geral podem ser ensinados dessa forma. Wilson acredita que a evocação espaçada funciona porque é uma forma de prática distribuída: distribuir as tentativas de aprendizagem ao longo de um período de tempo, em vez de realizá-los todos concomitantemente, em bloco, aumenta a probabilidade de aprendizagem. A prática massiva de aprendizagem é uma estratégia menos eficiente do que a prática distribuída” (Wilson, 2011).

PISTAS EVANESCENTES OU APAGAMENTO DE PISTAS 

“As pistas evanescente ou apagamento de pistas são um método através do qual são dados estímulos/pistas e gradualmente retirados. Por exemplo, pode-se esperar que uma pessoa aprenda uma palavra nova primeiro copiando a palavra inteira; então a última letra seria apagada, a palavra seria copiada novamente e a última letra inserida; então, as duas últimas letras seriam apagadas e o processo repetido até que todas as letras sejam completadas pela pessoa aprendendo a palavra” (Wilson, 2011).

Essas e outras técnicas de Aprendizagem Sem Erro sem dúvida tem um valor importante na compensação de prejuízos de aprendizagem e memória. Não é incomum vermos cuidadores perguntando aos pacientes amnésicos: “Lembra o nome dele”? – “é o João?” – “não é o João” – “é o Pedro” – “também não é Pedro, tenta adivinhar”...

Esse tipo de tentativa de fazer o paciente “puxar pela memória”, como se diz no senso comum, definitivamente vai prejudicar mais do que ajudar. Nesse exemplo acima se o paciente não lembra é melhor dizer qual o nome da pessoa e repetir várias vezes para o paciente ter uma aprendizagem sem erro. O mesmo princípio vale para educadores que fazem tentativas com alunos com problemas cognitivos durante o ensinamento da tabuada, etc.

Além da Aprendizagem Sem Erro, existem vários outros recursos para compensar os déficits de memória. Para os interessados, indico o livro abaixo, do qual retirei todas as informações desse manuscrito. Barbara A. Wilson é uma referência nessa área e esse é seu único trabalho que conheço traduzido para o Português.

Referências:

Wilson, B. A.; Reabilitação da Memória: Integrando teoria e prática: Artmed, Porto Alegre: 2011.

 

 

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