O que é Terapia Cognitivo-Comportamental?

 

Princípios básicos

Esta forma de psicoterapia caracteriza-se por ser uma abordagem:

(a) ativa, pois paciente e terapeuta estão constantemente agindo cooperativamente no sentido solucionar os problemas, de modo a permitir que o próprio paciente aprenda a identificar e modificar seus pensamentos;

(b) diretiva, pois é dirigida aos problemas apresentados no “aqui-e-agora”, trabalhando pensamentos, sentimentos e comportamentos atuais do cliente, usando os dados da história passada apenas quando contribuem para maior compreensão de suas crenças;

(d) educativa, pois o terapeuta ensina o paciente o modelo cognitivo, a natureza do seu(s) problema(s), o processo terapêutico e a prevenção de recaída;

(e) estruturada, pois a terapia possui uma seqüência de sessões previamente estabelecida;

(f) de prazo limitado, pois de uma forma geral são necessárias apenas de 16 a 20 sessões no

caso de alguns transtornos do Eixo I, sendo porém bem mais extensas nos casos de transtornos do Eixo II (Transtornos da Personalidade);

(g) que utiliza tarefas de casa - como uma atividade integrada ao processo terapêutico - e que consistem na realização de exercícios de habilidades adquiridas nas sessões, bem como do uso de técnicas e de experimentos entre as sessões com o objetivo de aumentar a efetividade e a generalização dos efeitos da terapia;

(h) que utiliza técnicas cognitivas e/ou comportamentais para a modificação das crenças do paciente.

Nota sobre o autor do texto acima:

Bernard Rangé - Doutor em Psicologia. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Presidente da ALAPCO (Associação Latino Americana de Terapia Cognitiva).

NÍVEIS DE COGNIÇÃO (PENSAMENTOS)

Esquemas cognitivos: são estruturas mentais que as pessoas criam desde crianças acerca de si mesmo, das pessoas, do mundo, etc. São esses esquemas que vão influenciar o modo como as pessoas interpretam as coisas. Os esquemas, depois de desenvolvidos, servem como modelos para o processamento das experiências ulteriores e acabam desembocando em confirmações automáticas e circulares dos próprios esquemas(Callegaro, 2011).

Os esquemas são compostos de padrões fixos e enraizados, memórias implícitas e explícitas e emoções ligadas a esses padrões e memórias. Normalmente filtram somente os aspectos da realidade que condizem com os próprios esquemas através das DISTORÇÕES COGNITIVAS, um conjunto de erros sistemáticos de raciocínio presentes durante o sofrimento psicológico.

Quando ativados, esses esquemas provocam algum tipo de sofrimento psicológico e para evitar isso, os indivíduos usam um ou mais estilos de enfretamento, que são: evitação, resignação ou compensação. Embora possam aliviar a dor momentânea, esses estilos de enfrentamento acabam por perpetuar os esquemas desadaptativos(Young, Klosko e Weishaar, 2008).

Todas as pessoas possuem esquemas cognitivos desadaptativos e adaptativos. O foco das terapias cognitivo-comportamentais é, primeiramente, identificar e modificar os esquemas desadaptativos, visto que são eles que causam o sofrimento psicológico, e posteriormente potencializar os esquemas cognitivos adaptativos (nesse caso usando alguns recursos do movimento da Psicologia Positiva).

Os esquemas cognitivos, via de regra, operam silenciosamente, fora do nível consciente. O que temos consciência são os produtos desse processamento inconsciente, ou seja, as crenças centrais, crenças intermediárias e pensamentos automáticos, vistos a seguir:

Crenças Centrais: as crenças centrais (ou nucleares), vista por alguns autores com sendo os conteúdos dos esquemas, são os nossos conceitos mais enraizados e fundamentais acerca de nós mesmos, das pessoas e do mundo. As crenças são incondicionais, isto é, independente da situação que se apresente ao indivíduo, ele irá pensar do mesmo modo consoante com suas crenças. Ex.: “Eu sou impotente para tudo”, “Eu sou um fracasso total”, “Eu sou incompetente”, “Eu não sou desejável”, etc. Essas crenças são construídas ao longo de toda uma vida e quando ativadas, logo de cara o indivíduo acredita que são verdades absolutas, o que acaba por influenciar suas emoções e comportamentos. Não obstante, normalmente essas crenças são falsas ou, no máximo, somente parcialmente verdadeiras (Knapp, 2004)

Crenças intermediárias: são construções cognitivas disfuncionais, expressa em forma de regras, normas, premissas e atitudes que adotamos e que guiam a nossa conduta. Encontram-se presentes em inúmeras, se não em todas, situações existenciais. Essas crenças pressupõem que, desde que determinadas regras, normas e atitudes sejam cumpridas, não haverá problema, e o indivíduo se mantém relativamente estável e produtivo. Ex.: “tenho que sempre ser o melhor”, “Devo ser perfeito”, “Se eu fizer o que os outros esperam, então todos irão gostar de mim”, “Não devo mostrar como sou, pois senão todos verão que sou incompetente”. Embora os indivíduos construam e mantenham as crenças intermediárias como tentativa de lidar com suas crenças e esquemas desadaptativos, eles acabam confirmando e reforçando(knapp, 2004).

Pensamentos automáticos: Pensamentos automáticos são um fluxo de pensamentos que coexiste com um fluxo de pensamento mais manifesto. A maior parte do tempo, nós mal estamos cientes desses pensamentos, embora com apenas um pouco de treinamento possamos facilmente trazer esses pensamentos à consciência (Beck, 1997). Normalmente, só percebemos as consequencias emocionais e comportamentais, e não o pensamento automático de milésimos de segundos que influenciam essas emoções e comportamentos. Ex.: Um funcionário que apresentou um relatório e não recebeu o elogio que esperava pode se sentir triste e decepcionado com a situação. Entretanto, ele pode ter tido o seguinte pensamento automático: “Meu trabalho ficou uma droga, por isso não recebi elogio”, ou “Meu chefe não gosta de mim mesmo”. Nesse caso hipotético, o indivíduo não avaliou toda a situação e as causas de não ter recebido o elogio; “acreditou” no primeiro pensamento automático que surgiu mesmo nem se dando conta dele.

 

Referências:

Beck, J. Terapia Cognitiva: Teoria e prática. Artmed, Porto Alegre: 1997.

Callegaro, M.M. O novo inconsciente. Artmed, Porto Alegre: 2011.

Knapp, P. Terapia Cognitivo-Comportamental na prática psiquiátrica. Artmed, Porto Alegre, 2004.

Young, J.; Klosko, J.; Weishaar, M. Terapia do Esquema. Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Artmed, Porto Alegre, 2008.

 

 
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