Intersecção entre TCC e Neuropsicologia

A Neuropsicologia Clínica e Terapia Cognitivo-Comportamental são duas áreas epistemologicamente congruentes. A intersecção entre as duas abordagens em vários casos (nem todos os casos é necessário a intersecção) tem se mostrado de grande valia e melhorado a qualidade e velocidade dos tratamentos devido ao maior entendimento e recursos que as duas áreas juntas possibilitam.

O presente texto que por objetivo expor, primeiramente, conceitos básicos sobre as abordagens e em seguida o modo como podem ser utilizadas conjuntamente.

A Neuropsicologia clínica é um campo do conhecimento interessado em estabelecer as relações existentes entre o funcionamento do Sistema Nervoso Central, por um lado, e as funções cognitivas e o comportamento, por outro, tanto nas condições normais quanto nas patológicas.

O neuropsicólogo clínico atua na avaliação, reabilitação ou ambas. Avaliação Neuropsicológica consiste no método de investigar as funções cognitivas e o comportamento. Trata-se da aplicação de técnicas de entrevistas, observações, exames quantitativos e qualitativos das funções que compõem a cognição abrangendo processos como Atenção, Memória, Linguagem, Percepção, Funções Executivas, Inteligência, Funções vísuo-motoras e espaciais, entre outras.

 

Já a (Re) Habilitação Neuropsicológica é um processo onde se utilizam técnicas remediativas (treino cognitivo) ou compensatórias (adaptativas) visando à maior recuperação possível ao nível físico, cognitivo, psicológico e de adaptação social das pessoas com alterações cognitivas.

Os problemas neuropsiquiátricos normalmente avaliados e tratados pela Neuropsicologia são TDAH, Problemas de Aprendizagem Escolar, Tumores Cerebrais, Epilepsia, AVC (derrames), Mal de Parkinson, Demências, Esquizofrenia, Uso de Drogas, Encefalite, entre outros problemas que podem causar danos cognitivos e comportamentais.

Psicoterapia Cognitivo-Comportamental é um termo genérico que abrange uma variedade de mais de 20 abordagens dentro do modelo cognitivo e cognitivo-comportamental.

Todas as terapias cognitivo-comportamentais derivam de um modelo prototípico e compartilham alguns pressupostos básicos, mesmo quando apresentam diferentes abordagens conceituais e estratégias nos diversos transtornos. Três proposições fundamentais definem as características que estão no núcleo das terapias cognitivo-comportamentais:

1. A atividade cognitiva influencia o comportamento.

2. A atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada.

3. O comportamento desejado pode ser influenciado mediante a mudança cognitiva.

Uma frase muito utilizada para definir esses pressupostos foi a do filósofo Epitectus, no século 1: “O que perturba o ser humano não são os fatos, mas a interpretação que ele faz dos fatos”.

Os transtornos psiquiátricos normalmente tratados com reconhecida eficácia pelas psicoterapias cognitivo-comportamentais são: Depressões, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Fobia Social e Fobias Específicas. Ao longo dos anos a TCC também vem sendo aplicada em Transtornos da Personalidade, Transtornos Alimentares, Dependência Química, Controle do Estresse, Treino em Habilidades Sociais, Esquizofrenia, Transtorno Bipolar, entre outros.

Realizada essa breve exposição sobre as duas abordagens, a seguir expõe-se a maneira de como as duas abordagens podem ser utilizadas em determinados casos:

Como a Avaliação Neuropsicológica pode contribuir na tomada de decisão clínica na Psicoterapia Cognitivo-Comportamental?

Auxílio diagnóstico em casos difíceis (Por exemplo: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade/Impulsividade).

Diferenciação entre déficits neurocognitivos e estilos desadaptativos com mais rapidez (Por exemplo: déficit de atenção ou evitação cognitiva)

Escolha entre técnicas cognitivas e comportamentais de acordo com os recursos neurocognitivos do paciente.

Identificação de déficits neurocognitivos que possam prejudicar o dia a dia do paciente e até mesmo o processo psicoterapêutico (Por exemplo: dificuldade com processamento de inferências).

 

Qual a relevância da Psicoterapia Cognitivo-Comportamental no processo de (Re) Habilitação Neuropsicológica?

Melhor entendimento da personalidade pré-morbida do paciente e reestruturação cognitiva em casos onde o paciente desenvolve crenças irracionais após lesão cerebral que influenciam emoções e comportamentos (Exemplo de Crenças: “Minha vida acabou”; “Não sirvo mais para nada”; “Sou um incômodo para toda a família”)

Auxílio no tratamento dos efeitos emocionais após uma lesão cerebral, os quais muitas vezes podem ser mais prejudiciais do que os próprios déficits neurocognitivos (Por exemplo: depressão e ansiedade).

Técnicas cognitivo-comportamentais para extinção ou redução de modos de comportamentos disfuncionais.

Treinamento de Habilidades Sociais para reinserção na vida social e de comportamentos mais compatíveis com a nova situação neuro-psico-motora.


O que tem em comum entre Terapias Cognitivo-Comportamental e Reabilitação Neuropsicológica?

Visam a uma meta

Envolvem resolução de problemas

São colaborativas e educativas

Testam hipóteses

Incluem medidas de resultados e treinamento de habilidades

São estruturadas

Normalmente tem tempo limitado (exceto algumas psicopatologias como transtornos e problemas relacionados à própria personalidade do paciente).

 

 

Referências Bibliográficas

Fuentes, D. e cols. Neuropsicologia: Teoria e Prática. Artmed, 2008: Porto Alegre.

Malloy-Diniz e cols. Avaliação Neuropsicológica. Artmed, 2012. Porto Alegre.

Knapp, P. Terapia Cognitivo-Comportamental na prática psiquiátrica. Artmed, 2004: Porto Alegre.

Rangé, B. Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais. Um diálogo com a psiquiatria. Artmed, 2011: Porto Alegre.

XI Congresso Brasileiro de Neuropsicologia. São Paulo, 2011.

 

 
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